d Livros apps

A Baía dos Mortos

Sinopse

Só na primavera seguinte reuni coragem para contar à sra. Bridgeworth o que me havia acontecido naquela noite em Morgat. Em primeiro lugar, porque a sra. Bridgeworth estava nos Estados Unidos na época; e, em segundo, porque, depois da noite em questão, permaneci fora do país por muitos meses – não por prazer, Deus sabe, mas por causa de um colapso nervoso que resultou, supostamente, do fato de eu haver voltado ao trabalho cedo demais após a febre sofrida no Egito. Porém, de qualquer maneira, mesmo se eu tivesse visitado Grace Bridgeworth antes, não poderia falar do acontecimento – nem com ela nem com qualquer outra pessoa. Só seria possível tocar no assunto depois de recuperar minhas forças e arejar a cabeça num daqueles sanatórios maravilhosos na Suíça. Não conseguiria sequer mandar uma carta para ela – nem se minha vida dependesse disso. Os acontecimentos daquela noite tiveram de ser soterrados por incontáveis camadas de tempo e esquecimento antes que eu pudesse tolerar a ideia de revisitá-los. O começo foi ridiculamente simples, nada além de um reflexo súbito do senso de dever atuando sobre uma constituição debilitada. Eu estava pintando na Bretanha, num lindo, mas indeciso, clima de outono: num dia, tudo azul e prateado, no outro, vendavais uivantes ou neblina espessa. Em Pointe du Raz há uma pequena hospedaria caiada que, no verão, é tomada por turistas, enquanto, no outono, transforma-se em um retiro solitário banhado pelo mar; e lá estava eu, tentando pintar ondas, quando alguém disse: — Você deveria ir ao cabo sei lá onde. Fica depois de Morgat. Fui, e lá passei um dia de prata e azul. No caminho de volta, o nome de Morgat gerou uma associação inesperada de ideias: Morgat – Grace Bridgeworth – a irmã de Grace, Mary Pask… “Sabe, agora a minha querida Mary mora numa casinha perto de Morgat; se um dia você for à Bretanha, vá visitá-la. Ela leva uma vida muito solitária… Isso me entristece muito.”