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Primeiros Princípios

Sinopse

Esquecemo-nos, muito frequentemente, não só de que "há sempre um fundo de bondade nas coisas más", mas muito geralmente também, de que há um fundo de verdade nas coisas falsas. Embora muitos admitam, de maneira abstrata, a probabilidade de que a falsidade tenha usualmente um núcleo de verdade, poucos a trazem à mente e a aplicam quando julgam opiniões alheias. Em geral se repele, com indignação e desprezo, toda crença que esteja em aberta oposição com os fatos, e no calor do confronto, raramente se pergunta o que abona ou justifica tal crença para o pensamento humano. Contudo, algumas razões devem existir para sua admissão, alguma relação com a experiência humana, relação talvez vaga e imperfeita, mas ainda assim, uma relação. A história mais absurda pode ter sua origem em um acontecimento real, sem cuja existência essa ideia descabida ora divulgada jamais houvesse nascido. Ainda que a imagem amplificada e deformada que nos transmite um rumor seja completamente distinta da realidade, sem este não teríamos imagem amplificada e deformada. Assim acontece com as crenças humanas em geral. Mesmo que algumas nos pareçam absolutamente falsas, pode-se admitir que tivessem sua origem em fatos, que primitivamente continham, e talvez contenham ainda, algo de verdade. E especialmente, temos com segurança de admiti-lo, quando se trata de crenças que prevaleceram por muito tempo e se difundiram muito, e, sobretudo, se são crenças vivas e quase ou totalmente universais. A presunção de que uma crença reinante não é inteiramente falsa adquire certa força conforme o número de seus partidários. Se admitirmos não ser possível a vida sem certa conformidade entre as condições de foro íntimo e as circunstâncias do Universo; se admitimos ainda que sempre há uma probabilidade em prol da verdade total ou parcial de uma convicção, deveremos atribuir muitas probabilidades de fundamento às convicções de um grande número de indivíduos, pois comumente as ideias falsas individuais se eliminam e emprestam ao juízo geral um valor maior. Talvez se objete que muitas das crenças mais expandidas são aceitas sob a fé da autoridade; que os que as professam nada fizeram por si para comprová-las, e que, portanto, a multidão de crentes pouco diz a favor da probabilidade de uma crença. Mas tal não é certo; quando uma crença conquista numerosos adeptos sem sofrer alguma crítica, é evidente que, em tese geral, está em harmonia com outras crenças dos homens que a aceitam, e, se estas foram pessoalmente comprovadas, proporcionam um fundamento indireto àquela com a qual se harmonizam. Pode ocorrer que esse fundamento tenha apenas um valor muito insignificante; mas é forçoso convir que algum valor terá.