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História Abreviada da Literatura Portátil
- Enrique Vila-Matas
- 102 Páginas
Sinopse
o fim do inverno de 1924, sobre o penhasco em que Nietzsche teve a intuição do eterno retorno, o escritor russo Andrei Biéli sofreu uma crise nervosa ao provar a irremediável elevação das lavas do superconsciente. Naquele mesmo dia e na mesma hora, não muito longe dali, o músico Edgar Varèse caía subitamente do cavalo quando, parodiando Apollinaire, fingia se preparar para ir à guerra.
Acho que essas duas cenas foram os pilares sobre os quais se edificou a história da literatura portátil: uma história europeia nas origens e tão leve quanto a maleta-escritório com que Paul Morand percorria, em trens de luxo, a iluminada Europa noturna: escritório móvel que inspirou a boîte-en-valise de Marcel Duchamp, sem dúvida a mais genial tentativa de exaltar o portátil na arte. A caixa-valise de Duchamp, que continha reproduções em miniatura de todas as suas obras, não demorou para se transformar no emblema da literatura portátil e no símbolo em que se reconheceram os primeiros shandys.{1}
Alguns meses depois, e com uma pequena alteração (um pente cumpria a função de fecho na boîte-en-valise), esse emblema criado por Duchamp seria retocado por Jacques Rigaut para representar, segundo suas próprias palavras, “a apoteose dos pesos leves na história da literatura”. O desenho de Rigaut foi muito celebrado, talvez pelo evidente caráter heterodoxo, e provocou uma extraordinária avalanche de novas e atrevidas profanações do emblema duchampiano, prova clara da ânsia de constante transgressão que caracterizou os primeiros escritores que se vincularam à sociedade secreta shandy.
Nesses mesmos dias, e uma vez que existia entre os primeiros shandys um medo generalizado de que a caixa-valise pudesse estar ao alcance de algum farsante, Walter Benjamin projetou, com notável êxito, aquela divertida máquina de pesar livros que leva seu nome e que ainda hoje nos permite detectar, com absoluta precisão, quais são as obras literárias totalmente insuportáveis e, por isso, ainda que tentem disfarçar, intransportáveis.



